29/04/2009

Especial 100º episódio – Roteiristas falam sobre como é trabalhar em Lost.

Roteiristas experimentam agonia e êxtase em contar a história.

Por Edward Kitsis e Adam Horowitz para a Variety

Selvas abundantes, praias ensolaradas. Refrescantes brisas oceânicas. Trabalhar em Lost é certamente um paraíso.

Pena que estamos falando do Havaí, onde Lost tem sido gravada há cinco temporadas. Onde os roteiristas trabalham? Bem, na verdade é em Burbank (Califórnia). Ao que nos referimos como a Oahu de San Fernando Valley.

Dito isso, a sala dos roteiristas de Lost é o paraíso em sua própria forma. Embora nenhum de nós esteja particularmente bronzeado, tivemos a sorte de apreciar a mais incrível colaboração que qualquer um de nós já experimentou em nossas carreiras.

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    Desde que nos juntamos à série durante a primeira temporada, trabalhamos em vários episódios, e durante esse período, encaramos algumas poucas verdade, ou segredos, sobre escrever Lost, que em homenagem ao 100º episódio, achamos ser bacana dividir. Não, não tem nada a ver com o monstro, Jacob ou os números – eles são muito mais mundanos do que tudo isso.

    A primeira coisa a se entender sobre Lost é que isso não é um trabalho. É um estilo de vida. Por cerca de oito a dez meses passamos o tempo escrevendo e produzindo a série a cada temporada, todos nós comemos, respiramos e dormimos “Lost” – e algumas vezes vamos à pizzaria, mas na maior parte do tempo o foco é só Lost.

    A próxima coisa que você precisa saber é a resposta para a pergunta que mais nos fazem: “Há mesmo um plano?”

    Sim. Nós realmente temos um plano.

    Contudo, há uma pequena distância a ser percorrida entre “ter um plano” e executá-lo. Há ainda a pequena questão de efetivamente dissecar esse plano nos 17 episódios ou mais que escrevemos a cada temporada. É ali que o trabalho surge, o que nos leva à próxima coisa que descobrimos sobre escrever a série. Cada episódio, para o bem ou para o mal, precisa passar pelo processo que chamamos de “Quebra dos quatro dias.”

    1º Dia – Não seria legal se...

    O 1º dia é aquele em que começamos a debater as ideias. Nós sabemos onde estamos no arco geral da trama, e sabemos onde temos que começar e terminat. Agora precisamos da ideia que nos leve do ponto A ao B, e o 1º dia é aquele no qual as melhores ideias surgem. É quando um de nós vai dizer algo como: “Não seria legal se... Miles e Hurley fizessem uma pequena viagem na kombi. Dois caras que podem se comunicar com pessoas mortas. Que tal? Isso seria legal, certo?”

    A empolgação toma conta da sala. O quadro outrora em branco já não está mais tão limpo. Nós conseguimos. Sabemos como o episódio será e estamos prontos para ir para casa. Um trabalho bem feito que nos leva ao...

    2º Dia – Err... há um problema

    Todos chegam cedo, empolgados para finalizar tudo só para descobrir que depois de uma noite de sono, talvez aquela grande ideia não se escreva sozinha e que talvez ela tenha alguns poucos problemas. As conversas então acontecem mais ou menos assim:

    Alguém: “Então temos dois caras na kombi indo ver o Chang.”

    Outra pessoa: “O que eles estão fazendo?”

    Outra: “Indo ver o Chang. É ali que descobriremos que ele é pai de Miles.”

    Outro: Mas assim a história não vai estar encerrada? No segundo ato?”

    Agora nossas grandes ideia subitamente parecem desafiadoras.

    Depois de algumas horas lutando com as dificuldades da nossa premissa, todos decidem refletir sobre ela de novo, o que nos leva ao...

    3º Dia – O Insight

    Todos nós voltamos, talvez um pouco mais tarde do que no dia anterior, e todos com a mesma conclusão.

    O problema não tem concerto.

    Hora de jogar no lixo. Não dá para aproveitar. Precisamos de outra coisa. Temos alguma ideia backup? Um show de talentos na ilha parece ser uma bela ideia à essa altura. Sim. Estamos ferrados. Tudo parece estar perdido. Pelo menos até o sol começar a se por e alguém silenciosamente tem um insight. No caso do episódio 5x13 ( “Some Like It Hoth”), aconteceu mais ou menos assim:

    Alguém: “E se depois de encontrarem o Chang na estação Orquídea, ele tivesse que voltar na kombi com Hurley e Miles?”

    Silêncio. Hora de absorver isso. À princípio parece apenas um pensamento pequeno, mas na verdade ele tem grandes repercussões. E isso muda o ânimo na sala, criando uma nova onda de empolgação.

    Isso, se fizermos assim Miles será forçado a interagir com o homem que ele não tem nenhum interesse em passar o tempo. Conflito! Drama! Um personagem indo numa jornada de descoberta. Aprendendo algo sobre seu passado que vai afetá-lo no futuro. E assim, a esperança está de volta à burbank.

    Navegando pelas ondas de euforia, todos vão para casa nervosos. Isso foi realmente um insight quente? Possivelmente, o que nos leva ao...

    4º Dia – A quebra do episódio começa

    Todos se sentam em volta de uma mesa. Muita energia é sentida. Temos alguma coisa ou não? À medida em que a discussão começa, subitamente as ideias para cenas começam a surgir. Lugares da nossa mitologia que deveriam aparecer, enfim, um tecido que conecte os episódios se apresenta. Todos os ingredientes parecem estar lá.

    E é nesse momento que sabemos que temos muito a fazer, mas que já temos um episódio.

    O que não significa dizer que acabamos. Não, na verdade estamos apenas começando, mas o processo gestacional de quatro dias para a ideia está completo, e agora podemos por as mãos na massa para definir os detalhes da história.

    É empolgante e desafiador ser parte disso se formando. Lentamente, mas certamente ao longo dos próximos dias ou semanas, cenas e a estrutura começam a aparecer. Tudo em apoio à ideia central que foi construída durante o processo de quatro dias. Todos respiram aliviados.

    Pelo menos até o intervalo acabar, porque é ali que mais uma vez, nós encaramos o quadro em branco que nos encara.

    Sim. É hora de fazer o episódio 5x14. O desespero lentamente toma conta da sala de novo. Como podemos fazer isso de novo? Estamos cansados, é tudo o que temos. Todo o talento que temos foi gasto no último episódio. Não dá para continuar.

    Alguém: “Espere. Não seria legal se...”

    E a sala fica em silêncio.

    Subitamente todos estão re-energizados. Todos nós nos damos conta disso ao mesmo tempo. É o 1º dia de novo e talvez, pode ser que consigamos fazer mais um desses.

    Cem episódios depois ainda estamos fazendo. Parece improvável, mas a Variety nos disse que é verdade, então deve ser mesmo. Agora, se você está realmente interessado em Jacob ou no monstro de fumaça, assista a série.

    Edward Kitsis e Adam Horowitz são produtores executivos de Lost.

    *-*-*

    A tradução dessa matéria originalmente publicada pela Variety, faz parte da comemoração pelos 100 episódios da série.

5 comentários:

renancst disse...

Fantastico!

Cecilia disse...

FANTÁSTICO!!! E saber que muitas das nossas agonias vem desse terceiro dia, do insight. Ah, eu queria ser uma mosquinha (ou ao menos uma secretária, office-girl, que seja) e saber o que rola lá nesses momentos finais!

Muito obrigada pela tradução! Ótimo trabalho, como sempre. =)

Gabizinha Vidal -Santos -SP disse...

Nossa sensacional!!!! Sem palavras!, eu tb como eles respiro, como durmo, acordo pensando em Lost hahah =]

Lucas Rodrigues disse...

Vei, muito MASSA!!

Dexter disse...

Hahaha, ótimas essas matérias em comemoração do centésimo episódio, valeu, Davi e Ju! ;)

Ah, pois é, eu também durmo, acordo, e respiro Lost - nem meus amigos me aguentam mais... hahaha.

Abraços