31/03/2007

Entrevista com Produtor/Diretor de Lost (SPOILERS)

Jack Bender, um dos produtores e diretores de Lost, nos conta um pouco sobre os caminhos trilhados entre a criação de um roteiro e a concretização do episódio, mostrando um pouco das mudanças de direção que ocorrem sob influência da audiência, dos envolvidos no processo de criação e execução, e dos próprios atores. Cuidado pois o texto pode ter SPOILER!


Por Kiel Phegley para o Wizarduniverse.com
Tradução Carolina Menescal

O quão difícil é para você e sua equipe filmar direto em um único cenário ou cena? Eu tenho que imaginar que com os flashbacks e tal, filmar em seqüência deve ser um problema.

BENDER: Bem, você sempre tenta fazer com o máximo de continuidade possível, mas às vezes nós podemos fazer isso e outras vezes, não. Por exemplo, estamos filmando um episódio agora, e é do episódio piloto da 1ª Temporada. Então um dos nossos personagens que não é mais do elenco principal está filmando o Piloto porque ele não é mais nosso contratado por episódio. Ele não é exclusivo nosso, então nós temos que filmar a parte dele no flashback de acordo com o horário disponível que ele tem. Eu dirigi um episódio que passou recentemente que foi sobre o Desmond e toda a sua experiência em flash-forward (metade foi na Inglaterra e Penny estava nele). Nós brincamos com o tempo e respondemos a pergunta sobre o fato de Desmond ir e voltar no tempo. Bem, nossa atriz, Sonya Walger, que interpreta a Penny, estava fazendo uma série para a HBO e estava completamente indisponível quando estávamos fazendo o episódio. Então, eu tive que fazer todo o episódio e filmar todo o flashback do Desmond, como as cenas no bar e tudo mais, durante o nosso curso normal de 10 dias de filmagem e três semanas depois, ou talvez um mês depois, nós tivemos que voltar e filmar as cenas que Penny estava em dois dias. Mas, certamente se é possível, nós tentamos filmar todos os flashbacks de uma vez só.

Nós ouvimos falar que ano que vem a nova temporada de Lost começará mais tarde para ajudar a discutir alguns dos problemas de horário que apareceram ano passado.

BENDER: Isso é verdade. Apesar de que ainda não ouvimos isso oficialmente, a palavra é fazer Lost seguir a fórmula de "24 Horas", onde nós voltamos mais tarde que o normal, mas temos episódios direto sem intervalos ou reprises, porque todos ficaram descontentes com o que fizemos ano passado. Mas não posso deixar de dizer que é difícil agradar a todos. Alguns episódios irão satisfazer os que gostam de saber sobre a mitologia da série e outros, como o último episódio do Hurley, irão satisfazer aqueles que gostam de ver o bem-estar dos sobreviventes que só querem ver o nosso povo de volta para a praia triunfantes. Mas para manter a audiência, nós certamente achamos que os episódios desse ano têm sido bons, apesar de Lost ter sido criticada, dizendo que os seis primeiros episódios foram inconsistentes. Mas não há dúvida que essa idéia de seis episódios e um grande intervalo até a volta do sétimo não foi uma ótima idéia. O canal, ABC e outros canais estão sofrendo hoje em dia, eu acho, para descobrir um jeito de manter a audiência e como tocar para frente o negócio televisivo. Afinal, essas séries são bem caras. E ainda são os canais, os anunciantes e a audiência que regem tudo isso. Então ano que vem... o plano é esse: voltarmos com a 4ª temporada mais tarde e ir direto com todos os episódios da temporada sem intervalos ou reprises, e eu acho que isso provavelmente irá agradar a todos.

Tradicionalmente, você tem feito a maioria dos primeiros episódios das temporadas e dos últimos episódios das temporadas (season premières e season finales) e também vários episódios-chave durante as temporadas. Como você faz para escolher qual episódio irá dirigir?

BENDER: Eu tenho naturalmente feito as premières, embora Stephen Williams tenha dirigido o episódio sete, do retorno de Lost esse ano, e eu irei dirigir o final da temporada deste ano. Ano que vem eu irei decidir se faço a estréia e talvez não faça o final e ou vice-versa. Stephen e eu meio que dividimos a responsabilidade em muitos episódios. Na verdade, eu acho que terei dirigido sete episódios esse ano e Stephen, oito. Não tenho certeza, é bem perto um do outro. Mas não sabemos antes e nem necessariamente os escritores, qual será o primeiro episódio. Bem, veja, eles podem saber qual será o primeiro episódio, mas eles não sabem quando nós começaremos a temporada, se o primeiro episódio vai ser do Jack, o segundo do Sawyer, o terceiro da Kate e assim por diante. E sempre descrevo Damon e Carlton e nossa equipe de escritores como pessoas olhando para baixo do alto de uma montanha e é uma trajetória em zingue-zangue. Damon provavelmente iria dizer que é mais olhar do alto da montanha do que esquiar montanha abaixo, mas eles sabem aonde as bandeiras maiores estão. Eles têm conhecimento sobre o começo da temporada e provavelmente sabem onde as grandes coisas irão acabar, e eles reconhecem essas bandeiras pelo caminho. Mas, exatamente quais obstáculos terão pela frente e o que fazer durante essa trajetória é meio indefinido. De repente, você terá que sair, dar uma paradinha e ir para atrás das árvores. Isso prova que Lost se auto escreve de várias formas também. Eles verão coisas não-planejadas ou coisas que podem acontecer inesperadamente; ou de repente um ator não está disponível, ou outra idéia pode vir a surgir ao longo do caminho. Eu sei que J.J. no começo da 1ª temporada disse, "Oh, isso é ótimo. Existirá uma pequena janela no alto da escotilha e uma luz vinda de dentro dela irá acender em algum momento". Ninguém sabia porquê ela iria acender. Isso simplesmente foi um momento dramático, quando em algum ponto, no meio da temporada, uma luz iria acender. "Ai meu Deus! Quem acendeu essa luz?" essa é uma das coisas empolgantes sobre a nossa série. Eles não sabiam quem iria acender a luz. Eles não sabiam que Desmond iria acender a luz, porque Desmond ainda não tinha necessariamente ganhado vida ainda. Então, eu diria que é um processo criativo onde esses caras definitivamente sabem para onde isso tudo está indo e quais são os grandes momentos e quais são as peças fundamentais do quebra-cabeça, mas eles nem sempre sabem exatamente qual é cada passo a ser dado ao longo do caminho.

Depois de todo o trabalho que você tem feito para a série e todos os atores do elenco que você tem trabalhado, existe algum momento fora do comum por trás das cenas que você realmente percebeu a sintonia entre a história e os personagens?

BENDER: Em um episódio dessa temporada, e eu não vou estragar isso, existe um momento que eu adicionei uma boa parte de mitologia para a nossa mitologia em curso (do que sabemos até agora). Isso são idéias que surgem como quando você está sentado sozinho fazendo o seu dever de casa e provavelmente as melhores idéias surgem quando você está lá na selva ou a água te diz alguma coisa, ou os atores te dizem alguma coisa. Por exemplo, Matthew Fox, que interpreta o Jack, e eu temos tido argumentos bem criativos às vezes e eles são sempre, sempre satisfatórios e algo realmente muito bom sai disso tudo, porque eu irei dizer algo para o Matt e desafiá-lo. Ele irá resistir a isso e então ele irá achar uma forma de avançar na direção disso ou me fazer avançar na direção de alguma coisa. Isso é só parte da colaboração e existe uma força de atores muito talentosos aqui, que durante o 3º ano ainda estão envolvidos com a série e conhecem seus personagens de verdade. Existia uma cena escrita há pouco tempo que originalmente tinha o objetivo de ser intensa com todos gritando, e Matt Fox e os outros atores, Josh Hollowa [Sawyer] e Evangeline Lilly [Kate], nós todos sentamos juntos e ficamos olhando para o que dizia o script. E sentimos que a disposição da onde que eles estavam opunha-se à 1ª temporada e de acordo com os caminhos que todos tinham tomado, a intensidade precisava estar presente naquela cena, mas o pânico que os personagens precisavam aparentar descrito no script não deveria existir. Eu fiz a escolha junto com os atores de mudar isso e funcionou muito bem. E Damon e Carlton adoraram.

Um comentário:

Anônimo disse...

Legal, deve dar um trabalhão pra fazer um episódio mesmo. Mas ficar um semestre inteirinho sem Lost vai ser difícil...