07/05/2006

A GALÁXIA CABE NUMA ILHA

Por Carlos Alexandre Monteiro*

ATENÇÃO: só leia se você assistiu ao episódio nº20 da segunda temporada. Caso contrário, guarde a leitura pra depois de fazê-lo. Depois não diga que não foi avisado.

Muito já foi falado sobre a reverência dos criadores e roteiristas de LOST à Star Wars. Muito já foi visto também: ela está em várias citações ao longo da série, ora em cenas que reproduzem diálogos dos filmes da obra de George Lucas (pequenos tributos captados apenas pelos fãs da saga estelar), ora em referências diretas mesmo - quem não se lembra de Sawyer se referindo a Jin como "Chewie" (o wookie Chewbacca, personagem da saga) ou de Hurley falando de um "momento Jedi" ?

Essa admiração ganhou contornos ainda mais sérios no fim desta segunda temporada com a trajetória de Michael, antes um homem pacato, vitimado pela esposa com o distanciamento do filho, e agora um aparente traidor da tripulação do 815. A ida do pai mais sofrido do vôo para o "lado negro da Ilha" guarda muitas semelhanças com a própria história do protagonista de Star Wars, Anakin Skywalker. Por isso, recapitulemos a história deste de forma bastante resumida - ou a contemos pra quem lê este texto sem saber bulhufas do homem por trás da máscara de Darth Vader:

Em tempos mais pacíficos da Galáxia, o menino Anakin Skywalker é descoberto pelos jedis, que não demoraram a ficar impressionados com o seu grau de concentração da Força, uma espécie de poder presente em tudo e em todos. O garoto em seu imenso potencial é tão incrível que ele é considerado uma espécie de "iluminado" pela Ordem Jedi. Só que é também uma criança insegura por conta do medo que possui em perder aqueles que amava - ao ingressar na Academia Jedi, por exemplo, Anakin vai morar longe de sua mãe, escrava num outro planeta.

A maior motivação de Anakin em seus treinamentos é a de um dia poder libertar sua progenitora. O tempo passa, e quando ele já é quase um Cavaleiro Jedi, resolve regressar ao seu planeta natal. E lá descobre que a mãe foi raptada por uma tribo nômade, suja, maltrapilha e tosca: os Tusken Raiders, também conhecidos como "Povo da Areia". Ele vai até o acampamento dessa gente, consegue encontrar a mãe lá mas ela já estava fraca demais e morre nos seus braços. A raiva e a frustração que sente são suficientes pra que Anakin dizime aquele povo por completo - mulheres e crianças inclusive, todos descritos por ele como "animais".

Dali em diante a vida e o caráter de Anakin vão ladeira abaixo. Mata um Mestre Jedi, vai pro lado negro da Força, torna-se Darth Vader. De quase Cristo vira quase Hitler, e assim exerce sua ira por muito tempo. Mas no fim de sua existência sua alma corrompida é salva. Por quem ? Pelo filho, Luke Skywalker. Último dos Jedis, de potencial comparável ao do pai, separado deste desde o nascimento, Luke consegue fazê-lo voltar à luz. The End.

Bom, depois dos três últimos parágrafos acho que já deu pra ver onde quero chegar, não ? Pois vejamos:

Michael é uma espécie de Anakin sem poder - aparentemente, essa parte dos "dons especiais" é aplicável apenas a Walt. Separado à sua revelia do filho desde que este era bebê, o reencontra dez anos depois. Na ilha, ele finalmente estava começando a ser o pai que sempre quis quando viu-se afastado do moleque mais uma vez. E como isso se deu ? Num rapto protagonizado por uma tribo aparentemente tão nômade, suja, maltrapilha e tosca quanto a dos Tusken Raiders de Lucas: os Outros. A descrição deles feita por Michael "bate" com a de Anakin em relação aos algozes de sua mãe: "Eles são como animais".

E mesmo o momento em que Michael quase hesitantemente atira em Ana Lucia e Libby remete a um Anakin caindo em dúvidas e tormentos ao liquidar com Mace Windu (o tal Mestre Jedi que citei) e assim carimbar seu passaporte para o Lado Negro. Dá até pra imaginar uma observação no script de Harold Perrineau, ator que dá vida a Michael: "Sabe quando Anakin desencaminha em Star Wars ? Então, Harry, beba dessa fonte e arrebente, cara!".

Os instantes finais do episódio 20 e a promo do episódio 21 sugerem a transformação de Michael em um homem bastante distante daquele pacífico sobrevivente do início da trama. E caso o destino do personagem seja mesmo o mal, quem será seu salvador ? Walt, seu filho, por muito tempo separado do pai qual Luke, possivelmente poderoso qual Anakin.

A história de Michael e Walt é de fato a mais influenciada por Star Wars em Lost, mas vale destacar que outras duas também têm bastante de Anakin e Luke: as de Jack e Christian e de Ana Lucia e Teresa Cortez. Não por acaso as três foram abordadas num mesmo episódio.

Crônicas sobre paixões filiais e paternais, danação e redenção, ascensão e queda. Isso é Star Wars. Isso é Lost. E é assim, reverenciando a obra-prima de George Lucas, que JJ Abrams, Damon Lindelof, Carlton Cuse e Javier Grillo-Marxuach fazem o que para os físicos seria impossível: em pouco mais de quarenta minutos por semana, colocam uma galáxia muito, muito distante dentro de uma ilha perdida num ponto remoto do planeta Terra.

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*Carlos Alexandre Monteiro é vocalista e guitarrista da banda Netunos - www.netunos.com.br - e tenta usar a Força pra antever o fim da segunda temporada
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11 comentários:

Liza disse...

Parabéns CA, seus textos são sempre ótimos. Realmente o cara foi para o Lado Negro da Força. Só nos resta saber se o Walt vai trazê-lo de volta à luz...

Luisa disse...

Este blog tem uma escrita otima. Adoro vir aqui!

Parabens e keep up with the good work!

Thiago disse...

Parabéns CA! A coluna fico mto boa! Adorei!

Adam disse...

Parabéns pelo texto! eu gosto muito da história de Star Wars (mais da história do que dos filmes) e realmente essas citações a ele são muito notaveis em Lost!

Ricardo disse...

Muito legal hein! Parabéns!

Cacá disse...

rapaz, via o link de vcs no lost download e nem dava valor...
agora dxa eu ler o resto pra tirar o atraso!
=*

solfirmino disse...

Ótimo assunto para pensar.

navarro18 disse...

puutz! e sabe que eu sou fâ incondicional de Star Wars e nem tinha me tocado sobre o porquê de eu ter a mesma facinação por Lost? realmente as semelhanças são gritantes!! ponto para os roteiristas, que se inpiraram numa fórmula que além de sucesso, te conteúdo..,

valeu pela "observação"!

deb disse...

feliz por ter descoberto o blog. cansada de passear por lugares (necessários, não dá pra ser lostmaníaca solitária) onde reina a ignorância e a bitolação. nos meus flashbacks dá pra ver que estava predestinada a encontrar vida inteligente na audiência lóstica! ;c)

isac disse...

com certeza tem tudo a ver com a melhor triologia de todos os tempos agora vcs esqueceram de colocar mais uma citação: o Sawyer chamando o Hurley de Jaba odeio o apelido pro nosso gordinho adoravel

Anônimo disse...

Carlão, o blog tá muito foda e você tá muito famoso. Abraço e petisssscossss.

CAPITÃO L.